CONCLUSÃO - Maquiavel e Hobbes : um redimensionamento histórico do conceito de Ética filosófica (2023)

Filo-sofia Política, Leo Strauss aponta Maquiavel como o primeiro agente da modernidade (con-ceito apresentado por Strauss e já mencionado aqui), quando Maquiavel entra em profundo desacordo com seus antecessores (alguns historiadores incluídos, como observa Newton Big-notto em seu artigo Maquiavel Historiador) quanto ao modo como o príncipe deve se condu-zir nos relacionamentos e interesses. Como motivo para esse desacordo, Maquiavel dedica-se à verdade prática, factual (dada as suas próprias contribuições como historiador, ainda no arti-go de Bignotto), e não a idealizações (ou a busca de um summum bonum). “Por se preocupa-rem em como o homem devia viver e não como o homem de fato vive, muitos imaginaram governos e principados que nunca existiram. A esse idealismo historiográfico e filosófico-po-litico tradicional, Maquiavel opõe uma abordagem realista das coisas políticas. Se bem que, como observa Strauss, “isto é apenas um lado da verdade ou, em outras palavras, o realismo de Maquiavel é de um tipo específico”, onde ganham peso os conceitos que ele estabelece para virtù, fortuna e prudencia.

Para o entendimento destes aspectos, Strauss faz recordar que a filosofia política clássica era uma busca pela “melhor” ordenação política ou pelo regime considerado “melhor” no sentido de que melhor conduziria à prática da virtude (em uma dimensão teleológica, escatológica da virtude), ao modo como o homem deve viver, e que o estabelecimento deste “melhor regime”

dependia necessariamente de uma incontrolável e ardilosa fortuna ou destino41. “Que tais na-turezas estejam ou não presentes depende do destino e não da arte do legislador. Maquiavel parece concordar com Aristóteles ao dizer que não se pode estabelecer a mais desejada orde-nação política se a matéria-prima [povo] é corrupta [...]. Mas se a matéria-prima corrupta re-presenta para Aristóteles uma impossibilidade, para Maquiavel é apenas uma grande dificul-dade. Essa dificuldade poderia ser superada por um homem excepcional que usasse os meios adequados para transformar uma matéria-prima corrupta em uma matéria-prima boa. O obstá-culo para o estabelecimento do melhor regime pode ser superado porque a sua matéria-pri-ma, o homem, pode ser transformado”. (STRAUSS, 2013:330) (Grifos meus)

Algumas questões já eram feitas por Maquiavel, a começar por uma questão filosófica parti-cularmente espinhosa que vem a ser o enigma representado pelo embate entre arbítrio e con-tingência - ou, nos seus próprios termos, respectivamente virtù e fortuna (já apresentados an-teriormente). A imprevisibilidade dos acontecimentos – levando-se em conta o panorama po-liticamente instável de seu tempo -, a irracionalidade do curso da história e a incapacidade hu-mana de se desvencilhar de suas naturezas e inclinações inatas (fatores os quais convergem

41 Diferentemente da República de Platão, onde o vir-a-ser do regime “ideal” depende da coincidência e im-provável união da filosofia e do poder político, e mesmo do “realista” Aristóteles, que concorda com Platãonos dois aspectos decisivos em que o “regime ideal” é a ordenação que adequadamente conduz à práticada virtude e a atualização deste regime depende do acaso. Para Aristóteles, o regime “ideal” não pode serestabelecido se a natureza do território e do povo presentes não for compatível com um regime “ideal”.

para o que ele definia como fortuna) levou Maquiavel a questionar onde e como o arbítrio (ou livre-arbítrio, como gostamos de denominar mais frequentemente) pode determinar ou influ-enciar o curso e resultado dos eventos (este, um sentido importante da virtù maquiavélica).

Ele às vezes sucumbiu a um tipo de fatalismo que nega a capacidade humana de se adaptar às mudanças. Nesse sentido, O Príncipe constitui corajosa – embora desesperada - tentativa para definir os requisitos de autonomia e de virtù mas, ironicamente, a solução apresentada no cap.

(Video) A Filosofia de Maquiavel resumida

2542 torna-se refém de tal fatalismo. Se, teoricamente, esta imprevisibilidade pode ser contro-lada (quer pela prudência, quer pela impetuosidade), a prática resulta ineficaz devido ao apri-sionamento das imutáveis naturezas individuais que obstruem a necessária flexibilidade de atitude para a aquisição da referida autonomia. Uma outra questão filosófica perseguida por Maquiavel – como herança, mas também como questionamento ao legado dos historiadores antigos e dos humanistas do Renascimento acerca do tema - foi a da liberdade: as condições em que esta se estabelece, como ser recuperada quando perdida e como defendê-la das condi-ções adversas da tirania e da permissividade. Ao questionar se a liberdade é mais eficazmente defendida pelas elites ou pelo povo, Maquiavel contestou a velha suposição paternalista de que a liberdade exige guardiões aristocratas. Sua compreensão da liberdade em função das relações de classe da mesma forma implicou a reformulação do conceito de tirania, que ele acreditava resultar do esforço de uma classe (geralmente a nobreza) para proteger-se dos seus rivais. Liberdade para Maquiavel é, em última análise, função das leis e das instituições pú-blicas que ele denominava ordini, ou procedimentos constitucionais com a finalidade de man-ter o bem público preservado de fatores como ambição política e inman-teresses particulares. Nes-se contexto, a mais grave ameaça às ordini – e, por extensão, à liberdade - é o poder de cida-dãos influentes com recursos para construir grupos de interesse os quais ignoram, perturbam e minam as instituições (leis, tribunais etc.), o que Maquiavel define como “corrupção” (ou sub-versão das ordini).

Nas considerações apresentadas por Maquiavel sobre a natureza humana e suas relações com a sociedade constituída de “animais políticos”, Strauss ainda observa que

[…] o que Maquiavel chama de repúblicas [ou, poderia ser, “Estados”] imaginárias dos primei-ros pensadores é baseado num entendimento específico da natureza que ele, ao menos implici-tamente, rejeita. De acordo com essa compreensão da natureza, todos os seres naturais, pelo menos todos os seres vivos, dirigem-se para uma finalidade, uma perfeição a qual eles aspiram.

[…] [E, nesse contexto,] Há uma perfeição notadamente humana que é determinada pela natu-reza do homem enquanto ser racional e social. A natunatu-reza fornece o padrão, um padrão total-mente independente da vontade humana; e isso implica que a natureza é boa. O homem ocupauma definitiva posição no todo, uma posição bastante destacada. Pode-se dizer que o homem éa medida de todas as coisas ou um microcosmo, porém que ele ocupa essa posição por nature-za. O homem tem assim o seu lugar em uma ordem que ele não criou. “O homem é a medida42 “De Quanto Pode a Fortuna nas Coisas Humanas e de Que Modo Se Lhe Deva Resistir”

de todas as coisas” é aqui o contrário de “o homem é o mestre de todas as coisas”. O homem tem um lugar no todo; logo, o poder do homem é limitado. O homem não pode superar as limi-tações de sua natureza. […] Essa limitação se mostra particularmente no inelutável poder do destino. A vida boa é a vida de acordo com a natureza, o que significa existir sob certos limites.

A virtude é, essencialmente, moderação. Não há nisso distinção entre a filosofia política clássi-ca e o apolítico hedonismo clássico: o desejável não é o máximo de prazeres, porém os mais puros dos prazeres; a felicidade depende decisivamente da limitação de nossos desejos.”

(STRAUSS, 2013:330-331) (Grifos meus)

(Video) A Filosofia de Thomas Hobbes

Como contextualização para um julgamento apropriado da doutrina política de Maquiavel, Leo Strauss considera um acordo, previamente estabelecido estabelecido pelos Escolásticos, entre a filosofia clássica e a Bíblia, acordo este considerado relevante levando-se em conta os conceitos filosóficos apresentados neste trabalho: o homem, criado à imagem bíblica de Deus, recebe por ordenação divina o comando de tudo que é criado na Terra, não o comando acerca do todo, mas a atribuição de um lugar, um posto, em uma ordenação natural das coisas, onde o justo é obedecer à ordenação estabelecida pelo plano divino - assim como no pensamento clássico a justiça significa observância a esta ordenação natural. E nesta ordenação natural, ao reconhecimento dos reveses do acaso corresponde o reconhecimento da inescrutabilidade da providência divina. Maquiavel rejeita toda esta tradição filosófico-teológica, pelos seguin-tes motivos:

As visões tradicionais implicavam que as coisas políticas não fossem levadas a sério (Epicuris-mo) ou então que estas fossem entendidas à luz de uma imaginária perfeição – as repúblicas ouprincipados imaginários [como o Reino de Deus] […]. Mas deve-se começar por como os ho-mens vivem [...]. O corolário imediato é a reinterpretação da virtude: [esta] não deve ser enten-dida como a causa da existência das repúblicas, mas [ela] existe exclusivamente por causa dasrepúblicas. A vida política propriamente dita não é redutível à moralidade, pois a moralidadenão é possível fora da sociedade política e pressupõe a sociedade política. A sociedade políticanão pode ser então estabelecida e preservada permanecendo nos limites da moralidade pelasimples razão de que o efeito ou o condicionado não pode preceder à causa ou ao condicionan-te. Além disso, o estabelecimento da sociedade política e mesmo da mais desejável sociedadepolítica não depende do acaso, já que o acaso pode ser conquistado e o material corrupto podeser transformado em um material incorruptível. Há uma garantia para a solução do problemapolítico por que (a) o objetivo está atenuado, i.e., está agora em consonância com o que muitoshomens de fato desejam, e (b) o acaso pode ser conquistado. O problema da política se tornaum problema técnico. Tal como Hobbes formulou, “quando as Repúblicas se veem destruídaspor dissensos internos, a culpa não está nos homens enquanto sua matéria constitutiva e simnos homens enquanto aqueles que as moldam”. A matéria não é corrupta ou viciosa e não hámal ou vício nos homens que não possa ser dominado. O que é requerido para tanto não é agraça divina, a moralidade ou sequer a formação do caráter, mas instituições eficazes. [...] Oproblema político fundamental é simplesmente “a melhor organização do estado que o homemseja de fato capaz de obter”. (STRAUSS, 2013:331-332) (Grifos meus)

Leo Strauss comenta como Maquiavel, em sua filosofia de cunho político e social, constituiu o divisor de águas para o caminho rumo à modernidade (como todo o seu conjunto de trans-formações) no sentido de que, de modo a entender esta mudança realizada por Maquiavel no redimensionamento histórico do conceito filosófico de Ética aqui estabelecido, deve-se consi-derar outras duas grandes mudanças, “que ocorreram depois dele, mas que estão de pleno acordo com o seu espírito”. A primeira é o surgimento da ciência natural moderna (consolida-da no pensamento hobbesiano), com a rejeição (consolida-das causas finais e, por conseguinte, do con-ceito de destino, aniquilando as bases teóricas da filosofia política clássica.

A nova ciência da natureza difere das várias formas da antiga ciência da natureza não apenas por causa de seu novo entendimento da natureza, mas sobretudo por causa de seu novo entendi-mento da própria ciência: o conhecientendi-mento não é mais entendido como sendo fundamentalmente receptivo; o ponto de partida do conhecimento é o homem e não mais a ordem cósmica [ou or-denação natural predestinada]; em sua busca pelo conhecimento, o homem pode chamar a natu-reza ao tribunal de nossa razão; […] o entendimento humano prescreve à natunatu-reza as suas leis;

o poder do homem é bastante superior ao que até ali se acreditava; o homem pode transformar a matéria humana corrupta em matéria humana incorrupta, ou conquistar o destino, pois toda a verdade e significado se originam do homem; o homem não está assim inserido numa ordem cósmica que antecede toda a atividade humana. [No plano estético, é o fator criatividade, e não mais o fator “imitação” ou “reprodução”, a guiar o processo criador] O propósito da ciência é reinterpretado: propter potentiam [para o poder], para o alívio da condição humana, para o con-trole da natureza, para o máximo concon-trole, para o concon-trole sistemático das condições naturais da vida humana. A conquista da natureza implica que a natureza é o inimigo, o caos a ser redu-zido à ordem. Tudo o que é bom se deve mais ao trabalho do homem do que a um presente da natureza, uma vez que a natureza oferece materiais quase sem valor. Desse modo, a sociedade política não é de forma alguma natural: o estado é meramente um artefato criado pelos gover -nantes. A perfeição do homem não é um fim natural do homem, mas um ideal criado livremen-te pelo próprio homem. (STRAUSS, 2013:332-333)

Sobre a inquestionável universalidade de Maquiavel e sua duradoura contribuição (levando-se Maquiavel em conta como o predecessor cronológico de Hobbes) – apesar das frequentes e inevitáveis distorções -, é John Najemy quem dá este parecer:

Maquiavel está agora em toda parte: rotineiramente invocado por comentaristas políticos e ân-coras; apropriado, adequado e distorcido por autores de manuais sobre o sucesso na política,nos negócios, e na guerra; denunciado por autoproclamados defensores da virtude política porter desencadeado as forças das trevas no mundo moderno; e admirado por ter exposto tal inge-nuidade em um mundo em que, supostamente, só a tenacidade funciona. É estudado, analisadoe debatido por eruditos a partir de uma ainda maior variedade de disciplinas acadêmicas e ori-entações intelectuais (literatura, história, filosofia, governo, ciência política, estudos de teatro,religião, ciência militar, e até mesmo história da arte) e atribuído como leitura obrigatória

(Video) MAQUIAVEL (FILOSOFIA POLÍTICA) | RESUMO DE FILOSOFIA PARA O ENCCEJA

(em-bora, normalmente, apenas “O Príncipe”) em mais cursos universitários e departamentos do que qualquer outro escritor. “Maquiavélico” assumiu vida própria como um adjetivo adequado universalmente reconhecido e tornou-se moeda comum, [...] usado (e abusado) na fala cotidia-na muito além dos círculos acadêmicos e intelectuais, em sentidos alheios ao Maquiavel histó-rico. Em debates de televisão e colunas de opinião de jornais sobre questões políticas e sociais, enquanto "marxista" e "freudiano" têm até agora adquirido uma mofada singularidade e a mai-oria dos outros nomes históricos significam pouco para a leitura geral ou a escuta pública, nin-guém, lamentavelmente, pensa ser necessário perguntar o que um orador pretende na caracteri-zação de alguma pessoa ou ideia como “maquiavélica”, ou se a caractericaracteri-zação é justificada.

[NAJEMY, 2010:05-06]

Levando-se em conta o fato de que tanto Leviatã como Príncipe constituem obras provocati-vas – quando não perturbadoras – ainda em nossos dias, com frequente carga de interpreta-ções errôneas atribuídas a ambas (várias dessas interpretainterpreta-ções nitidamente sugerindo a neces-sidade de uma leitura mais atenta e ainda mais: uma compreensão das circunstancias históri-co-filosóficas que levaram os autores a elaborar seus sistemas), estre trabalho pretendeu de-monstrar como estes constituem dois livros escritos em momentos históricos conturbados, di-ante de uma crise de paradigmas que obrigaram os respectivos autores a revisarem alguns conceitos. Para muitos, esta revisão pode ser interpretada – ainda que midiaticamente, na mai-or parte do tempo - como uma “deturpação”, “inversão” ou “subversão de valmai-ores”, como John Gray observa.

Os humanos prosperam em condições que a moralidade condena. A paz e prosperidade de umageração sustentam-se sobre as injustiças de gerações anteriores; as delicadas sensibilidades dassociedades liberais são frutos de guerra e império. O mesmo é verdadeiro para indivíduos. Agentileza floresce em vidas resguardadas; uma confiança instintiva nos outros raramente é forteem pessoas que enfrentaram o improvável. As qualidades que dizemos valorizar acima de todasas outras não podem resistir à vida ordinária. [...] Muito do que admiramos vem de coisas quejulgamos más ou erradas. Isso é verdadeiro para a própria moralidade. O príncipe de Maquia-vel há muito tem sido condenado por pregar a [suposta] imoralidade. Ele ensina que qualquerum que tente ser honrado na luta pelo poder certamente acabará se lamentando: conquistar emanter o poder requer virtú, audácia e um talento para a dissimulação. (O ensinamento de Ma-quiavel é escandaloso mesmo hoje, quando todo mundo quer ser um príncipe.) O Leviatã deHobbes foi atacado por observar que na guerra a força e a fraude são virtudes. A lição de A fá-bula das abelhas43, de Bernard de Mandeville, é que a prosperidade é guiada pelo vício — por43 Bernard Mandeville, ou Bernard de Mandeville (1670–1733), foi filósofo, economista político e satírico. Em-bora holandês de nascimento, viveu a maior parte de sua vida na Inglaterra, tendo escrito a maioria de suasobras em Inglês; The Fable of the Bees: or, Private Vices, Publick Benefits (“A Fábula das Abelhas: ou, VíciosPrivados, Benefícios Públicos”) é sua obra mais conhecida. Embora o poema tenha sido publicado pela pri-meira vez em 1705, adquiriu versão expandida em livro, na forma de ensaio, em 1714. Esta Fábula - cujaanálise adquire importância inclusive no campo da Economia, além do da Filosofia Moral e Política defen -dia aquilo que conhecemos como os vícios humanos, a saber: ganância, inveja, vaidade e orgulho, sendotais vícios entendidos como fundamentais para a prosperidade de uma nação; e este desejo ou processo

avareza, vaidade e inveja. […] Nesses escritores, uma verdade proibida é posta a nu. Não é apenas que a vida boa tenha muito pouco a ver com 'moralidade'. Ela somente floresce por cau-sa da 'imoralidade'. Os filósofos morais sempre se evadiram a escau-sa verdade. Aristóteles come-çou a evasão quando apresentou sua doutrina do meio-termo, que diz que as virtudes aumen-tam e diminuem aos pares. Coragem e prudência, justiça e simpatia — todas são alaumen-tamente de-senvolvidas no homem virtuoso. (Não esqueçamos que ele fala apenas dos machos.) Mas, como até Aristóteles deve ter notado, as virtudes podem ser rivais: um rigoroso senso de justi-ça pode afastar a simpatia. Pior ainda, 'virtude' pode depender do 'vício'; a coragem frequen-temente vai junto com uma certa inconsequência. Quando se trata de vício e virtude, os seres humanos não são um todo coerente. […]” [GRAY, 2011:123-125] (Grifos meus)

Por fim, Nicole Loraux cita Marc Bloch fazendo uma ligeira referencia a Maquiavel, ao con-trapor o pessimismo maquiaveliano sobre a imutabilidade na natureza humana, em oposição ao otimismo de Bloch, em sua crença de como o espirito humano evolui à medida que adqui-re e aprimora as informações adqui-recebidas. E tal influi na sistematização tanto de um pensar his-tórico como de um pensar filosófico, estabelecendo uma compreensão evolutiva como o pró-prio sistema hobbesiano parece sugerir, onde as constantes mudanças podem, de acordo com o ambiente – hostil ou benéfico -, aprimorar o espírito ou fazê-lo regredir.

É claro que já não mais acreditamos hoje que, como escrevia Maquiavel […], havia no tempo

(Video) Atualidade de Maquiavel: política e conflitos | Entrevista com João Aparecido Gonçalves Pereira

“ao menos algo de imutável: é o homem”. Aprendemos que o homem também mudou: em seu espirito e, sem duvida, ate nos mecanismos mais delicados do seu corpo. Como poderia ser di -ferente? Sua atmosfera mental transformou-se profundamente, sua higiene e sua alimentação também. Entretanto, é preciso que exista na natureza humana e nas sociedades humanas um fundo permanente. Sem o que os próprios nomes homem e sociedade nada poderiam significar.

(BLOCH, apud LORAUX, 2009:192-193)

O “fundo” permanece através dos tempos, como referencia tanto para a consolidação de valo-res como para o questionamento e reformulação dos mesmos. Mas, como Maquiavel e Hob-bes acreditavam, tal questionamento é possível apenas mediante a fundamentação de bases

pela busca do interesse individual teria, como consequência (deste processo mesmo), um “caráter estabili-zador” social. Desta forma, o “bem comum” - ou, digamos uma derivação do Summum bonum em umaacepção no mínimo inusitada - seria definido não como produto da bondade ou das virtudes humanas, massim dos vícios individuais (o que sugere um “redimensionamento” do conceito quanto à sua tradicionalacepção de virtude moral e filosófica). Um detalhe curioso é o de que, quando publicada na forma originalde poema, a fábula atraiu pouca atenção, sendo no entanto considerada escandalosa ao ser desenvolvida eapresentada como ensaio, tida como ofensiva às virtudes cristãs ainda nos dias de hoje – em uma interpre-tação similar às do Príncipe e do Leviatã. (OBS.: uma tradução da Fábula em Português está disponibilizadaneste link: http://economiapoliticabrasil.blogspot.com.br/2009/03/fabula-das-abelhas-de-bernard.html,acessado às 21:00h de 11/01/2015)

culturais sólidas (no indivíduo, através da instrução adquirida, e desta formação para a conso-lidação das instituições), para que as mudanças ocorram de maneira estruturada. Portanto, para Maquiavel e para Hobbes, este “fundo” residia na formação por eles adquirida, entre in-fluências clássicas e escolásticas, adaptadas e destiladas em uma reformulação de conceitos que a premência de tempos difíceis exigia. Em Maquiavel e em Hobbes verifica-se, nesta tare-fa de redimensionamento do conceito de valores como Ética e Moral, transpondo-os de seu patamar de valores “absolutos” e colocando-os sobre a perspectiva relativizante terrena e rea-lista, um problema apresentado pelo sistema escolástico-tomista: o da subordinação do sum-mum bonum ao sumsum-mum esse (ou “Suprema essência”) no contexto de uma metafísica do ser, mas agora subordinada ao plano sociopolítico terreno e à condição naturalista de “animal político” da natureza humana, no sentido de que o “Sumo” (outrora identificado em Deus e no Uno), para Maquiavel e para Hobbes, passa a se relacionar ao plano terreno de uma organi-zação política como finalidade de uma organiorgani-zação social, e os “graus de perfeição do bem”

(antes entendidos como uma escala hierárquica dos tipos de bem dirigidos ao “Bemsupremo”, ou Deus) redimensionados como a sólida fundamentação das bases políticas (comoMaquiavel pretendia) a erigir instituições duradouras (como Hobbes pretendia), em um pro-cesso sociopolítico conduzido não mais pela idealização de valores absolutos e abstratos, maspela vivência do real e do concreto oferecido pela realidade, mediante a experiencia, aprendi-zado e avaliação das obras passadas (a História) e presentes (a conduta sociopolítica), tanto noplano individual como no plano organizacional.

FAQs

Qual a visão de Maquiavel e Thomas Hobbes sobre a existência do Estado? ›

Assim como Maquiavel, Hobbes também estava preocupado com a estabilidade política. Para ambos, a questão crucial da política era garantir a paz interna dos Estados. No caso de Hobbes, o ponto de partida para pensar a estabilidade política é o indivíduo, enquanto que para Maquiavel é o governante.

Quais as diferenças e semelhanças entre a forma de Estado de Maquiavel e Hobbes? ›

a) Quais são as semelhanças e diferenças entre a forma de Estado de Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes? Uma semelhança é a ideia de um Estado centralizado em uma figura que está acima de todas as demais, no caso de Maquiavel o príncipe (ou o rei) e no caso de Hobbes o rei que age como um leviatã.

O que é ética para Thomas Hobbes? ›

A lei natural e a ética hobbesiana possuem uma relação íntima, a sabor, a lei natural serve como um ponto de partida para a ética. A ética hobbesiana, por sua vez, só se estabelece de fato no Estado, ou seja, quando há um soberano que é capaz de determinar o que é bem e mal para o seu povo.

Quais são os principais conceitos do pensamento de Maquiavel? ›

Em sua teoria política, Maquiavel destacou a importância de se manter o poder, ou seja, do governante manter-se no governo, para que o Estado e a ordem social sejam preservados.

Qual a tese de Maquiavel sobre o Estado Qual a divisão das formas de governo de acordo com Maquiavel? ›

Das obras de Maquiavel O Príncipe e Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio (Os Discorsi), Norberto Bobbio conclui que Maquiavel vislumbra duas formas de governo: Principado (correspondendo ao reino ou monarquia) e república (que tanto pode ser uma aristocracia, quanto uma democracia).

Qual é a tese de Maquiavel sobre o Estado? ›

Para Maquiavel o Estado tem que ser real, ou seja, é preciso ver e examinar a realidade do jeito que ela é e não como gostaríamos que fosse. Maquiavel acredita também que o Estado precisa passar por ciclos de estabilidades e caos, mas a ordem precisa imperar.

Como é o homem em estado de natureza para Hobbes? ›

Hobbes afirma que no estado de natureza os homens podem todas as coisas. Por isso, eles utilizam todos os meios disponíveis para consegui-las. No estado de natureza, segundo Hobbes, os homens podem todas as coisas e, para tanto, utilizam-se de todos os meios para atingi-las.

Como o Maquiavel define a natureza humana? ›

Primeira: Maquiavel compreende a natureza humana como corrompida de forma definitiva, o que transforma o Estado em instrumento puramente coator da malevolência humana. Nesta ótica, não há espaço para pensar em finalidades éticas do Estado.

Qual é o objetivo do poder político Segundo Maquiavel? ›

O que se deve pensar é que o objetivo maior da política seria manter a estabilidade social e do governo a todo custo, uma vez que o contexto europeu era de guerras e disputas.

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Author: Rubie Ullrich

Last Updated: 12/11/2022

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